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O Instituto Estadual de Educação General Flores da Cunha completou, recentemente,
138 anos e atende 3 mil alunos de Educação Infantil, Ensino Fundamental,
Ensino Médio e Curso Normal.
O IE, carinhosamente assim chamado, é uma das mais tradicionais escolas públicas de Porto Alegre e tem sido referência estadual e nacional em educação nestes longos anos.
O Prédio Sede e Educação Infantil está situado na área central da cidade,
na Av. Osvaldo Aranha, inserida no território do Parque Farroupilha, também
conhecido como Parque da Redenção. Em 2005, tanto a Redenção como o Prédio
Sede e da Educação Infantil, comemoraram seus 70 anos.
A Redenção é o mais antigo parque da cidade, fundado em 1935, com o nome e contornos que ainda hoje exibe. Nesse ano, foi palco da Exposição Comemorativa do Centenário da Revolução Farroupilha. Atualmente, se encontra tombado provisoriamente pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre (está em trâmite o processo de tombamento definitivo).
Na comemoração do Centenário Farroupilha, ou seja, em 1935, no prédio do IE, foi gloriosamente alocado o Pavilhão Cultural. Após, em 1937, a escola foi transferida para o local.
Nesse contexto é que se encontram as telas “Garibaldi e a Esquadra Farroupilha”
de Lucílio de Albuquerque, e "A Tomada da Ponte da Azenha" e “Chegada dos
Casais Açorianos” de Augusto Luis de Freitas, pintadas nas primeiras décadas
do século XX.
Desde 1984 até o momento, em mais de uma ocasião, houve tratativas para a realização da restauração destas telas. Durante estes quase 30 anos de tentativas, estas obras - localizadas na escadaria da escola, por onde passam diuturnamente centenas de alunos - têm sido vitimadas por infiltrações e mudanças bruscas de temperatura. Desde sua colocação nas paredes do saguão da Escola, elas estão sofrendo e sua restauração agora é urgentíssima, sob pena de perda definitiva deste patrimônio histórico e cultural. Quando se perde a representação do passado, corre-se o risco de se perder parte de nossas raízes históricas e culturais, pois estas telas têm dupla importância, tanto como patrimônio artístico, como histórico.
É doloroso sim. Cada obra não deveria estar linda, deslumbrante, à vista de todos, contando a história, a nossa história, o nosso passado, as nossas raízes? Elas não deveriam ser cuidadas e respeitadas pela sua idade, pelo seu significado, assim como cuidamos e respeitamos nossos avós? As telas, assim como nossos avós, não são nosso passado?
Enquanto instituição reservada ao exercício do saber, do aprender e do educar, temos a Escola fazendo papel também de Museu.
Segundo Marly Rodrigues1: "O sentido atribuído à ação preservacionista soa como uma honra a ser concedida a um passado glorioso, mas difuso, do qual o solicitante não é partícipe, mas apenas admirador”.
Conforme Nestor Garcia Canclini2: "É compreensível que as classes populares, enredadas na escassez das moradias e na necessidade de sobrevivência, se sintam pouco envolvidas na conservação de valores simbólicos, sobretudo se não são os seus".
Tanto Marly Rodrigues como Canclini usam o argumento de que as pessoas precisam se apropriar do seu patrimônio para realmente considerá-lo seu, seu passado, suas raízes, sua história, pois o que é objeto da história é definido por especialistas sem a participação do público, sentindo-se ele então marginalizado, como que observando a representação de um passado que é de outro e não seu.
Por que os alunos do Instituto de Educação não se apropriam das telas?
Nada mais do que justo. Por isso me congratulo com a Associação de Ex-alunos, apoiando esta última iniciativa, clamando pela participação de alunos, ex-alunos, professores, ex-professores, políticos das esferas Nacional, Regional e Municipal, e a Comunidade em Geral, na mobilização pela restauração de nossas obras, com empresários utilizando a Lei de Incentivo a Cultura ou através de contribuições via depósito bancário.
O IE por si só é um cartão de visitas, marco desta Capital, especial, único e maravilhosamente patrimonial e cultural. Internamente, por todos aqueles que por aqui passam ou já o fizeram, mas graças à grandiosidade de suas telas: “Garibaldi e a Esquadra Farroupilha” de Lucílio de Albuquerque, pintada em 1917, e "A Tomada da Ponte da Azenha" e "A Chegada dos Casais Açorianos", ambas de autoria de Augusto Luis de Freitas, pintadas em 1922 e 1923, que retratam a História do Povo Gaúcho.
No Guia básico de Educação Patrimonial, de Maria de Lourdes Horta, Evelina Grunberg e Adriane Queiroz Monteiro Lemos3: "O conhecimento crítico e a apropriação consciente pelas comunidades de seu patrimônio, são fatores indispensáveis no processo de preservação sustentável desses bens, assim como no fortalecimento dos sentimentos de identidade e cidadania."
"Para um indivíduo gostar e preservar um objeto patrimonial é necessário que ele, antes de tudo, se aproprie deste objeto e para isso é fundamental o conhecimento". Afirmativa da Professora Maria Beatriz Pinheiro Machado4.
Depoimento de Estela Regina Fasolo
Diretora Geral 2004/2006
Fontes
1 CANCLINI, Néstor Garcia. Culturas híbridas: estratégias para entrar y salir de la modernidad. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1992.
2 RODRIGUES, Marly. A memória possível: passado, presente e cidadania. In: História e cidadania. Anais do XlX Simpósio Nacional da ANPUH, 1998. 2v. 327-332.
3 Grifo do autor. HORTA, Maria de Lourdes; GRUNBERG, Evelina; MONTEIRO, Adriane Queiroz. Guia básico de educação patrimonial. Museu Imperial, IPHAN, Ministério da Cultura. 1999.
4 Professora do Curso de Especialização Em Educação e Patrimônio Histórico e Cultural, FAPA.
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